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Cantareira

A Praça da Cantareira constitui um território emblemático para compreender os processos históricos de transformação urbana em Niterói. Desde o período colonial, a região passou por sucessivas intervenções, especialmente os aterros e reformas urbanas, que alteraram sua configuração espacial e social. Esses processos estiveram diretamente ligados à transição da cidade colonial para a cidade capitalista.

Os aterros, apresentados historicamente como soluções técnicas para a expansão urbana e a modernização da cidade, contribuíram para a redefinição dos usos do solo e para a valorização imobiliária da região. No entanto, tais intervenções também promoveram a expulsão de populações pobres, o apagamento de memórias negras e populares e a intensificação da segregação socioespacial. Nesse contexto, a gentrificação da Cantareira não se configura como um fenômeno recente ou espontâneo, mas como resultado de um processo histórico contínuo, sustentado por políticas urbanas excludentes e pela lógica do mercado imobiliário.

Ao mesmo tempo, a Cantareira se mantém como um espaço de resistência, atravessado por práticas culturais, usos informais e formas de sociabilidade que desafiam a homogeneização imposta pelo urbanismo capitalista. A presença da Universidade Federal Fluminense, de estudantes, trabalhadores e movimentos sociais contribui para a permanência de uma vida urbana diversa, que tensiona os projetos de valorização simbólica e mercantilização do território.

A gentrificação da Cantareira não é um fenômeno isolado ou espontâneo, mas resultado de um processo histórico e institucionalizado. Desde as décadas de 1970 e 1980, a região central de Niterói passou por esvaziamento residencial e desvalorização do solo, cenário que posteriormente foi utilizado para justificar políticas de “revitalização”. A partir dos anos 1990, a cultura passou a ser mobilizada como vetor de reposicionamento econômico da cidade, com a inauguração do Museu de Arte Contemporânea (MAC), o projeto Caminho Niemeyer e, posteriormente, as intervenções do programa Pró-Cidades, financiado pelo Banco Interamericano de Desenvolvimento.

Essas ações elevaram o capital simbólico da região, mas também estimularam a especulação imobiliária, a privatização de equipamentos culturais e o aumento do custo de vida. A ausência de instrumentos de proteção habitacional, como as Zonas Especiais de Interesse Social (ZEIS), tanto no Plano Diretor de 1992 quanto no de 2019, deixou a Cantareira exposta à lógica do mercado, consolidando um processo de substituição social que transforma um território historicamente popular em um espaço elitizado e voltado ao consumo.

Produtos do Acende a Luta!

O produto desenvolvido foi uma zine, elaborada a partir de pesquisa histórica e bibliográfica sobre os processos de aterramento, desenvolvimento urbano e gentrificação em Niterói, com foco na região da Cantareira. O material articula texto e linguagem visual para refletir criticamente sobre a transformação do espaço urbano e o apagamento de memórias populares.

A zine foi disponibilizada em formato digital, por meio do Instagram do projeto “Acende a Luta”, e em formato impresso, sendo distribuída durante evento presencial do projeto, ampliando o acesso ao conteúdo e reforçando seu caráter informativo e educativo.





Abaixo estão disponíveis os relatórios dos grupos:



Referências Principais

FERREIRA, Simone Antunes. MEMÓRIAS DA DIÁSPORA AFRICANA: REGISTROS E (GEO)GRAFIAS DA PRESENÇA PRETA EM NITERÓI/ Simone Antunes Ferreira ; Flávia Elaine da Silva Martins, orientadora ; Denilson Araújo de Oliveira, coorientadora. Niterói, 2021.


MADEIRA FILHO, W. ; TERRA, A. D. G. . Gentrificação, revitalização ou reestruturação? As diferentes formas de nomear os processos de neocolonização urbana no centro de Niterói RJ. In: II CONGRESSO INTERNACIONAL INTERDISCIPLINAR EM SOCIAIS E HUMANIDADES, 2013, Belo Horizonte. Globalização e Interdisciplinaridade. Niterói- RJ: ANINTER-SH, 2013.


FIGUEIREDO, Kelly Soares. Produção imobiliária e valorização urbana em Niterói (2001–2014). Tese (Doutorado em Geografia) – Universidade Federal Fluminense, 2020.


GIACOMIN, Alessandra; MADEIRA, Wilson. A Cantareira ainda é nossa? 2014.


GIACOMIN, Alessandra; MADEIRA, Wilson; OLIVEIRA, Márcio. Gentrificação, revitalização ou reestruturação: o uso da cultura na reconfiguração urbana de Niterói. 2013.



Referências Complementares

MARTINS, Joubert de Assis. Nova Niterói: a orla sepultada: da Utopia à Agonia / Joubert de Assis Martins. – Niterói : [s.n.], 2006. 178 f.


MEDEIROS NETO, Jorge Pinto. “Ali na Cantareira”: um estudo sobre as transformações urbanas e o processo recente de gentrificação do bairro de São Domingos, Niterói. / Jorge Pinto Medeiros Neto. - - Niterói, RJ: UFF / ICHF / PPGS, 2015.


MEDEIROS NETO, Jorge Pinto; VEIGA, Felipe Berocan. Praça da Cantareira: usos e práticas informais em um espaço público de Niterói. In: O Social em Questão, v.42. Rio de Janeiro: ESS-PUC-Rio, set.-dez.2018, p. 23-44.


PEREIRA, R. D. A Evolução Urbana de Niterói: Da cidade colonial à cidade capitalista. In: 16º SHCU, 30 anos. Atualização Crítica, 2021.


MEDEIROS, Jorge Pinto Neto. Ali na Cantareira: um estudo sobre as transformações urbanas e o processo recente de gentrificação do bairro de São Domingos – Niterói. 2014.


VASCONCELOS, Tainá Mocaiber Cardoso. Plano Diretor de Niterói: conflitos e disputas. 2018.


VILLAÇA, Flávio. As ilusões do plano diretor. São Paulo: Studio Nobel, 2005.


NITERÓI. Plano Diretor de Niterói. Lei no 1.157/1992.


NITERÓI. Plano Diretor de Niterói. Lei Complementar no 3.385/2019.

Créditos da Turma

Equipe Zine


  • Gabriella Cavalcanti: Texto, pesquisa e distribuição;

  • Giulia Assumpção: Texto, pesquisa e distribuição;

  • Pedro Aquino: Pesquisa e distribuição;

  • Rafael Gussem: Design e edição e distribuição.


Equipe Gentrificação


  • Giovani Oliveira de Almeida: Pesquisa e roteiro;

  • Marina Poeta: Apresentação;

  • Warley Cústodio Vidal Aguiar: Pesquisa e roteiro.



©2026 por Acende a Luta.

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